Topónimo

   Segundo Monsenhor João Gonçalves Gaspar, na sua obra "Eixo na História":

   - "talvez o topónimo "Eixo" tenha provido do vocábulo sânscrito ex+ahúa, usado pelos Celtas e por outras tribos indo-europeias e assumido pelos romanos. Composto pelos radicais do linguajar onomatopaico, significa "saída de curso livre de água corrente" ou "foz do rio"; de ahúa - e de suas variantes au(a), au(o), av(a), av(o), laua, lava, saua ou sava - teriam surgido, por exemplo: . bua e aqua no latim, "bua" e "áfua" no português, "acqua" no italiano, "eau" no francês, asim como tantos topónimos, nomes de cursos de água (vg. Ave, Agadão, Águeda, Vacca→Vouga) e outros étimos portugueses e europeus. De Ex+ahúa sucessiva e naturalmente resultaria a pronúncia popular e a grafia ulterior, em parte registada, de Exau→Exò→Exso→Exu→Exo→Eyxo→Eixo. Como atrás foi referido, antes do rio Vouga, um braço do oceano alongava-se até ao Marnel, ladeando estes sítios."

   Todavia não devemos descurar o que escreve Carlos Vidal Coelho de Magalhães na sua obra "A Antiga Vila de Eixo":

   - "Não está averiguada ainda, de maneira definitiva, a origem do topónimo Eixo. Não se passou, até agora, de hipóteses, algumas com certo carácter científico, outras de cunho popular.

   Como é natural e tem vantagens, precederei a sua exposição e comentário da enumeração das formas arcaicas do topónimo.

   Tenho notícia das seguintes variantes gráficas que vão indicadas por ordem cronológica:

    Exso – 1050 (P. M. H., Dipl. Et Chartae, doc. nº 378);

    Exu (Villa Exu) – 1081 (P. M. H., Dial. Et Chartae, doc. nº 595);

    Exo (Villa Exo) – 1095 (P. M. H., Dipl. Et Chartae, doc. nº 819);

    Eyxo e Eixo – 1282 (Inquirição na Terra do Vouga, in Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. IX, nº 34);

   ExxioI – 1328 (o Rol das Cavalarias do Vouga, in Arquivo do Distrito de Aveiro, vol. VIII, nº 30).

   Esta última variante, que se nos depara depois da forma definitiva Eixo, é, à primeira vista, estranha: é anomalia que tem a sua explicação no facto de se tratar de uma latinização tabeliónica que ocorre em O Rol das Cavalarias do Vouga: impô-la a necessidade de harmonizar o topónimo com a forma que tinha de dar-se a este inventário oficial

   Passando ao estudo das etimologias, baseadas em critério científico, citarei, em primeiro lugar, a que propôs o Dr. Venâncio de Figueiredo, a mais antiga, segundo o meu conhecimento.

 Em sua opinião, o topónimo Eixo  deriva de eixido, palvra que no Elucidário de Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo aparece ainda sob as formas gráficas exido, enxido, ixudo, ixudeo, e sobre cujo significado Viterbo escreve:

   «Com esta variedade, achamos escrita esta palavra, com que os nossos maiores quiseram significar uma fazendinha, cerrado, quintalzinho, hortejo, ou conchozo, que está contíguo, ou não longe, da vivenda, e para o qual há mui fácil entrada ou passagem: por ficarem ordinariamente estes pequenos prédios è saída das casas, se disseram eidos, exitos, exidos, etc. do verbo exeo, sair.»

   Venândico de Figueiredo, baseado em Viterbo, conclui que «se daria a esta povoação (Eixo) o nome das vivendas dos seus primeiros povoadores».

   Mais tarde, o sr. Dr. Joaquim da Silveira filiou o topónimo Eixo num nome pessoal romano.

   Sob o pseudónimo Th. Ramires, expõe e fundamenta, num antigo jornal local, do seguinte modo, a sua opinião:

   «Segundo a teoria de Jubainville, teremos, aqui, porventura, apenas um nome pessoal romano Ascus ou Iscius cuja existência o mesmo autor documenta e que daria Eixo, como fascis deu feixe ou piscis deu peixe Recherche sur l’origine de la propriété foncière et des noms des lieux, págs. 351 e 359).»

   Recentemeente, o sr. Prof. Joseph M. Piel filiou, também, o topónimo Eixo num nome pessoal, mas de origem germânica.

   Escreve:

   «O facto de existirem formas em ici prova que estamos em presença de um nome próprio e não de um apelatico Eixo (de Áxis cuja existência na toponímia mal se justificaria).

   «As formas antigas, que o onomástico traz, são: Exso – 1050, Exu – 1081, Vila Exo – 1095, Eyxom (Outeiro de) – 1258, Eixo, Eixa, Eixea do séc. XV.

   «A última, Eixea, é particularmente elucidativa, por representar, sem dúvida, um nome em ila que pela terminação só pode ser germânico.

   «Quanto á raiz, explico-a por Asks que já apontei no art. Escarei. Um nome Ascila, ou Ascilu, seria uma formação correcta, visto existir, de facto, um nome Asco e muitos outros nomes compostos com esta raiz. Cf. F. P. 492».

   Quanto à etimologia proposta prlo Dr. Venâncio de Figueiredo, parece-me deficiente, não só sob o ponto de vista histórico, como sob o ponto de vista filológico: além de Eixo nos aparecer no séc. XI como villa, as primeiras formas gráficas, que deixei anteriormente registadas, parece não serem consentâneas com a evolução do étimo que propõe.

   Confrontadas as etimologias apresentadas pelo Dr. Joaquim da Silveira e pelo sr. Prof. Piel, ressalta, imediatamente, como mais bem justificada, a daquele.

   Efectivamente, ao passo que o antropónimo proposto, como étimo do nome Eixo, é findamentado na hipótese do sr. Dr. Joaquim da Silveira, o do sr. Prof. Piel é simplesmente suposto, como, aliás, ele próprio assinala com o asterisco convencional.

   E o facto de os dois antropónimos (Ascius e Ascilu) terem grandes semelhanças, pelo menos, gráficas, é um argumento mais a favor da hipótese do sr. Dr. Joaquim da Silveira que, como já ficou dito, invoca um étimo, não suposto, mas real.

   Valoriza-a, ainda, a forma latinizada Exxio que já registei: esta latinização do topónimo parece ser uma reminiscência da sua filiação.

   Demais, aquele sufixo ila que o sr. Prof. Piel quer ver num nome de que teria vindo a forma Eixea, a qual considera «particularmente elucidativa», enxerta-a ele numa forma gráfica que não pertence ao toponomástico, mas sim ao onomástico, não podendo, por isso, ter com Eixo senão uma relação indirecta.

   Parece-me, assim, que deverá dar-se a primazia à hipótese do sr. Dr. Joaquim da Silveira, tendo como muito provável a derivação do topónimo Eixo de um nome de origem romana, como já notei, e donde teria vindo Villa Exo, expressão esta designativa do respectivo proprietário.

   E afigura-se-me que esta hipótese pode encontrar, até, alguma justificação no facto de, em Portugal, existir, ou, pelo menos, ter existido, um lugar na freguesia de Dois Portos, concelho de Torres Vedras, com igual nome – Casal de Monte do Eixo, e, em Espanha, o toponomástico acusar a existência de nomes idênticos, com a grafia Ejo e ijo. De quatro colhi notícia, dois, respectivamente, em cada uma das províncias da Corunha e de Lugo, na Galiza.

   A par da evidente comunidade de origem etimológica, é possível, e até provável, que tenham tido, também, filiação histórica comum.

   Provado este facto provada ficava a hipótese a que não tenho dúvida em aderir. ..."