Orago

 

Se bem que alguns historiadores julguem que Santo Isidoro nasceu em Cartagena, o mais seguro é que tenha visto a luz em Sevilha, pelo ano 556.

 Seu pai Severiano, de nobre família hispano-romana, casado com Teodora, que pertencia provavelmente à raça dos invasores germânicos, vivia em Cartagena, onde nasce S. Leandro, S. Fulgêncio e Santa Florentina. O pai desterrado voluntariamente, nos tempos de Leovigildo, protector dos arianos, refugiou-se com os seus na província Bética. Deve ter morrido pouco depois em Sevilha e do mesmo modo sua esposa. Devido a estas faltas, a educação de Isidoro ficou entregue aos irmãos mais velhos, especialmente a Leandro que, inspirado no rigor pedagógico do tempo, propendeu para a dureza e severidade.

A lenda apresenta-nos o menino que, acobardado pelas repressões e vencido pelo desalento, sentindo-se incapaz de meter a lição na cabeça, foge da escola e põe-se a andar sem rumo pela margem do Guadalquivir. cansado e sedento, senta-se na margem dum poço e começa a contemplar, dentro, uns canaizinhos na pedra. Uma mulher que vem buscar água encontra-o pensativo e explica-lhe: as gotas de água, caindo um dia atrás doutro no mesmo sítio, abriram aqueles orifícios. "Então, diz o biógrafo do século XII, o menino pensou que, se a água caindo lentamente pode vencer a dureza da pedra, também o seu espírito rebelde e duro poderia receber os vestígios do ensino".

Pelo ano de 583, quando Leandro se encontrava em Constantinopla, Isidoro já era denodado paladino do catolicismo. Por 600 morre Leandro e é eleito por unanimidade Isidoro para lhe suceder na cátedra de Sevilha. Em 619 Reúne e preside o Sínodo II hispalense ou sevilhano, e em 633 assiste ao IV Concílio toletano, a que também preside. E morreu a 4 de Abril de 636. Estes são os puros factos, inteiramente certos da sua vida.

Espírito extraordinariamente organizador, tomou parte activa da solução da questão ariana e da judaica, e ainda na reorganização da Igreja visigoda. A ele se devem a criação de seminários, a unificação da liturgia, a regulamentação da vida monástica, a composição do líber cánonum e do livro oficial, que servia aos diáconos e presbíteros como manual teológico e litúrgico; o estabelecimento da vida de comunidade no clero e os frutos do IV Concílio de Toledo que traçou a pauta daquelas assembleias político-religiosas, espécie de cortes do reino.

Como sábio, o seu mérito consistiu em salvar a cultura antiga do naufrágio universal que a ameaçava com a invasão dos bárbaros. Foi pedagogo não só do reino, mas do mundo inteiro. É tesouro imenso aquilo que passou por sua mão invadindo a posterioridade, que o escuta agradecida, o venera, o lê e o admira.

Os Padres do VIII Concílio de Toledo chamam-lhe "doutor insigne do nosso século, novíssimo ornamento da Igreja católica, o último no tempo mas não na doutrina, o varão mais sábio dos últimos séculos, cujo nome deve ser pronunciado com reverência".

Pai espiritual de muitas gerações e doutor universal dum milénio, foi chamado também "o último Padre da Igreja do Ocidente". A sua obra imortal, intitulada Etymologiae, consta de vinte livros, e é extraordinária e genial para o seu tempo.

E S. Isidoro praticou o que ensinou. Um texto antigo pinta-o com estas palavras: "Foi largo nas esmolas, insigne na hospitalidade, sereno de coração, verdadeiro nas palavras, justos nos juízos, assíduo na pregação, afável no exortar, habilíssimo para ganhar as almas para Deus, cauto na exposição das Escrituras, sábio no conselho, humilde no vestir, sóbrio na mesa, pronto a dar a vida pela verdade e eminente em toda a classe de bondades".

A oração era para ele o remédio do pecado, o martelo do vícios e a atmosfera da vida cristã: "Todo o progresso espiritual vem da lição e da meditação. Uma instrui-nos e a outra purifica-nos. É preciso ler frequentemente e orar ainda com maior frequência, para viver em união com Deus".

A última lição de tal vida foi a sua morte santa. No termo do ano de 635 sentiu aproximar-se o fim e multiplicou então suas esmolas.

Na Semana Santa de 3636 teve de renunciar ao lava-pés dos pobres, a consagrar o santo crisma e a benzer as águas baptismais. A 31 de Março, reanimado com a alegria da Páscoa, sentiu-se com forças para ir à Basílica de S. Vicente.

Queria receber o rito da penitência, que era comovedor. Um sacerdote rapava a cabeça do moribundo, vestia-o de cilício e derramava um punhado cinza em forma de cruz. O penitente confessava logo em alta voz os seus pecados e, a seguir, recebia o Santo Viático. Depois vinha a sentença sacerdotal: "A teu pedido dei-te o rito da penitência; tem cuidado agora de não pecar enquanto viveres no corpo. A tua vida deve ser chorar, gemer e tremer, pelos pecados cometidos. Já não podes misturar-te com as coisas do século; não podes desejar nada que seja temporal. Estás como que morto para o mundo".

A cena foi comovedora. A multidão exclamava: "Indulgência". No fim dirigiu-lhes ele a última recomendação, palavras de amor e paz: "Peço-vos que observeis a caridade entre vós; não deis mal por mal,... não arrebate o lobo nenhum de vós e volte a ovelha errante ao redil nos ombros do pastor". E não quis sair da Basílica sem receber o ósculo dos circunstantes. Todos passaram diante do moribundo. "Perdoai-me, dizia-lhes, e Deus vos perdoará".

Três dias depois, a 4 de Abril, a morte do Metropolita veio interromper os júbilos pascais. "Quem não há-de crer, dizia a testemunha, que foi, livre de toda a mancha, juntar-se imediatamente com a sociedade dos Anjos?"